23/06/2010

Leãozinho


Se não fossem pelos sites de relacionamento e todas essas coisas do século XXI, talvez isso tudo não existisse. Não saberia a cor dos seus olhos, do seu cabelo, ou até mesmo, seus gostos e pensamentos. Eu nunca te vi, mas sua imagem já é (sempre foi, e sempre será) nítida em mim. Não tenho muito o que dizer, mas sei que gosto dos seus abraços de píxels, seu desabafo cibernético, e seu sotaque paulista, que, aliás, eu acho uma graça. Acho que o espaço que você ocupa no meu coração, talvez seja maior, mais intenso e muito mais importante quanto de alguém que está perto de mim.
Nossa amizade movida a energia hidrelétrica convertida em elétrica, cabos, conexões, e a Embratel (eu acho), me deixa muito, mas muito feliz, você não sabe o quanto.
Nunca acreditei nesse tipo de coisa, mas ah, você me fez pensar diferente sobre muitas coisas.
Então, pra terminar a ladainha e esse texto sem gênero definido, quero dizer que eu te amo muito, minha paulista preferida, de sotaque lindo, olhos lindos e um coração enorme.
Saudade do que eu ainda não vivi. O futuro não me interessa, mas espero que faça parte dele.

20/06/2010

Chuva Engarrafada


Iria escrever sobre calorias, minha insanidade e alienação temporária pós-refeição, mas não, não vou fazer isso. Fico muito puta comigo mesma porque isso me incomoda. E eu, ah, eu não faço nada. Me sinto idiota, e, para me punir, fico parada. E nesse ciclo vicioso eu estou, faz tempo.

Enquanto tentava me distrair disso, me transportei para dia 2 de Fevereiro de 2007.
Lembro até a roupa que eu usava. Eram umas duas da tarde. Estava no carro, com meu pai, no banco de trás; no lado do passageiro. Nesse momento, atravessávamos um cruzamento, pleno centro de Belo Horizonte. Era perto do Mercado Central.

Paramos devido ao engarrafamento. Chovia fino, o céu estava aberto, e o sol, fraquinho, me esquentava um pouco, passando pela janela fechada, naquele caos urbano.
Vinha um homem correndo na direção do carro, e, bufando, parou no nosso lado, em cima do passeio. Ele tinha a pele clara. Estava molhado por conta da chuva e jogava o cabelo liso pra trás. Depois apertou os braços contra o corpo, que, devagar, ia esfriando mais. Logo, batia os dentes. Era bonito, confesso.

O trânsito continuava parado, cauteloso, molhado.

O homem, por não conseguir atravessar, continuou ali, do mesmo jeito, por longos segundos.
Logo atrás, correndo dentre os carros, segurando um guarda-chuva transparente, vinha uma mulher. Tão bonita quanto o homem. Também tinha a pele clara, e os cabelos lisos e escuros. Eu achei até interessante o jeito com o qual ela corria, esvoaçando os cabelos, e molhando a barra da calça.
Parou, do lado do homem.
Ele não a percebeu. Era mais baixa que ele, tinha que olhar pra cima pra vê-lo.

Devagar, chegou perto dele, e colocou o guarda-chuva de um jeito que também o cobria. Ele, por um momento, se assustou. Passou o braço molhado em volta dos ombros dela, para os dois ficarem debaixo do guarda-chuva. Eu não podia ouví-los, mas sei que nada disseram. Apenas sorriam, cúmplices.
O trânsito aliviou um pouco.
Meu pai, arrancou com o carro.
E eu, nunca mais esqueci.

18/06/2010

Testamento Equivocado


Quero concentrar toda a minha saudade em você; tudo o que eu sinto e não tem denominação, toda a minha confiança e atenção. Te dar tudo o que eu tenho agora, que é a vontade de experimentar algo novo, que é querer pertencer a alguém de forma íntegra, pelo menos com um pouco de sentimento; sendo feliz, e só.
Divido com você, tudo o que sinto, tudo o que tenho.

14/06/2010

Sobre Ladrilhos e Ônibus

Amanhã de manhã eu quero acordar às 6 da manhã, me olhar no meu espelho grande do banheiro, vestir meu uniforme azul-marinho, colocar minha mochila laranja nas costas, e sair porta afora.; exatamente às 6:30.
Quando abrir o portão, a primeira coisa que eu quero ver é meu poste ainda acesco, no meu passeio, fazendo par com a minha castanheira pouco frondosa pelo outono. Meu passeio. Quantas vezes eu não me sentei ali. Quantas vezes não tomei chuva, não chorei, não amei... ali.
Descer a rua calçada com pedras grandes, devagar, por mais que estivesse atrasada; curtindo cada centrímetro da rua que um dia eu quis ladrilhar.
Quero, passar no portão da sua casa, e pensar: "Mais tarde eu passo aqui.". Atravessar a passarela do metrô, observando as grades amarelas, deixando que as lembranças tomem conta de mim.
Cerrar os olhos pra conseguir ver as horas na torre do relógio, jogar os cabelos para trás.
Esperar, subir e curtir o ônibus. É, o ônibus. Olhar, da janela suja, a vida alheia, que se repetia, dia após dia, certeira. E eu amo ver aquilo. O cara da moto, o semáforo, o cobrador, o motorista. A televisão ligada na Globo dentro da lanchonete.
Descer do ônibus, respirar a poluição do centro da cidade, passar na frente da igreja; ver um aglomerado de pessoas com a mesma roupa que eu.
Beijar, abraçar, "Bom Dia!".
Como eu quero chorar. Chorar, só por lembrar. Lembrar de quem estaria ali. Quem eu quero ver, quem eu quero sentir. Que raiva que me dá de saber onde eu quero estar, e não poder!
Me sinto idiota. Nove e meia da noite sete-lagoana. Amanhã de manhã, farei tudo o que não quero fazer.
Só hoje, por favor, me deixa voltar pra lá?
E que diabos é você que me impede de estar?
Quero você, calçada. Quero você, poste. Quero você, castanheira. Quero você, espelho; e tudo o que viria em vossa consequência.
Pelo menos, agora. Só hoje.
Só pra parar de doer.

13/06/2010

Remember, November

Estávamos sentados na varanda. O clima não era muito bom, nada nem perto do sentimento que geralmente tinhamos:
- Roberto, nós estamos brigando muito.
- Você que implica muito comigo, Ceres.
- Roberto, você me proibe de ver o Sérgio, implica com tudo o que eu faço, eu sou eu quem implica com você? Me poupe! Alguma vez eu te proibi de fazer alguma coisa? - minha voz se alterou, e ele permaneceu calado; seu semblante pesado.- Sabe, Beto -respirei-, eu acho melhor se nós dessemos um tempo... talvez seja melhor pra gente pensar, não? Faltam menos de um mês pra mim me mudar pra cá, o que você acha? -eu disse, como se fosse um pedido pra uma viagem.
- Ceres, não gosto de meio-termo. Não gosto.-sua voz era ríspida.- Ou a gente continua assim, ou termina.
- Roberto, por favor... eu gosto tanto de você! Vamos fazer isso? -eu já implorava.
- Ceres... -a voz dele me assustava.
- Então, tá -eu disse, perdendo o tom-, vamos terminar.
Ele tirou a minha pulseira que ele levava no pulso, colocou no chão, perto de onde eu estava sentada, de frente pra ele.
- É, falou, zé... vamos terminar.
Ele levantou, e saiu pelo portão afora.

"Zé? Falou, zé?" Aquilo não enfiava na minha cabeça de forma alguma.
Uma lágrima, solitária, devagar, rolou pelo meu rosto, exatamente no lado direito. Nossa, que simples. Nós havíamos terminado. Não me permiti chorar, nem gritar, como era o que eu queria. Ele não merecia que eu sofresse. Como assim, eu que implicava? Era ele que tinha mansagens de meninas no celular, do tipo "Me busca na porta da escola, amor?" ! E era eu que implicava? Eu não podia ter amigos, eu não podia ver o Sérgio, eu não podia contar piada... e por quê? Só porque eu morava em outra cidade? Por que ele não confiava em mim? Eu confiava nele!
Era um mês de novembro. O tempo estava fechado. Não chovia, fazia calor.
Ele saiu pelo meu portão nitidamente irritado comigo; e eu não queria fazer nada.
Os três meses que se passaram foram comigo o amando. Ou, pelo menos, mentindo pra mim mesma. Passávamos os sábados e domingos no sofá da sala, tomando sorvete, se abraçando.
Aquela foi a unica vez que eu chamei algum garoto de "namorado". Aquelas foram as minhas unicas lembranças. E essa, de ele saindo pelo portão, foi a última.

Ontem foi dia dos namorados. Se ainda estivéssemos namorando, estaríamos fazendo quase um ano.
E eu o vi. Na rua, naquele frio descarado, eu estava de mãos dadas com outra pessoa. A pessoa em quem quero apostar "minhas fichinhas". Para um recomeço, uma tentativa, sempre cái bem. Eu não me incomodo com o Roberto, agora. Para um recomeço, uma (ou algumas) lembranças, sempre caem bem. Eu não me incomodo com essa situação, agora.

Rolei na cama a noite inteira. Quando dormi, sonhei com o dono das minhas fichinhas.
Enquanto eu o esperava, o frio da minha barriga combinava com a noite e com a situação inteira.
Depois, tudo combinava.
Essa é uma das situações em que eu preciso de instabilidade. Agora é uma boa hora pra não saber o que vai acontecer, só pro frio da minha barriga combinar com todo o resto.

Em novembro, essas coisas já vão ser lembranças. E o que aconteceu novembro do ano passado, também.
Em novembro já não vai ser mais recomeço. Essa é a unica certeza que eu tenho.
Te espero, novembro, te espero.
Vejo que não demora.

Vem resto da minha vida. Vem pro resto ser lembrança. Vem pro resto não ser mais recomeço. Vem.

04/06/2010

i'm a gunner ♥


Você não deveria ter envelhecido, caro Axl, eu ainda queria ver sua tatuagem da segunda arte do CD Appetite for Destruction intacta e visível no seu antebraço direito, sempre acima do seu relógio, com você eu queria ter uma chance, com você eu queria morar. Nós ficaríamos na porta de casa, você cantando Sweet Child O' Mine, Patience, Don't Cry, Estranged pra mim ... Eu faria desenhos de golfinhos pra você, não faria escova pro meu cabelo ficar meio desvairado ... Pena que você já tem 46 anos, e eu, coitada de mim, e eu, 15. Agora você tá velho, barrigudo, barbudo, e com trancinhas afro. Ôh cara, bandana e cabelo ruivo sem pentear é mais sexy, acredite em mim. Eu ainda vou ter um converse vermelho e branco com seu nome atrás. Um dia saberá da minha existência, quem sabe, talvez, um dia me ame. Na verdade, deveríamos morar na terra do nunca. Um ídolo dos anos 80, pra viver comigo, para sempre. Talvez seja isso que falta pra mim. Com você, viveria o irreal. Tomaríamos chuva num mês de novembro, nos amaríamos...
Com você, só posso sonhar. Pena que o tempo passa, pena que as coisas mudam.
Filho da puta do tempo, que fez com que nós nos desencontremos.

Pauta para o projeto How Deal
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