30/09/2010

Lembranças

Vejo o Dia chegar se arrastando
Vejo que tudo ainda acaba me machucando.
Não quero ver mais nada.
Já sinto que a tristeza estampa o meu rosto.
Queria fechar meus olhos,
e apenas deixar que a vida venha ao meu encontro.
Não sei mais rimar
Não sei mais amar
Não sei mais viver.
A minha consciência sobre as coisas vem aumentando.
A última coisa que eu desejaria.
Poder fazer sem ser responsável
poder fazer achando fácil
realizar o que é ou não tão indispensável.
Se preocupar apenas com você mesmo
sem se queixar, nem saber se machucou alguém.
Se jogou, se pisou, se amou...
E eu que falei "nem pensar!"
agora vejo conscientemente que disse errado.
E mesmo contra minha vontade, vejo o dia se arrastando.
Se arrastando, e melhorando.

29/11/2008

16/09/2010

Café para Dois


A única coisa que eu estava tentando fazer, naquela hora, era esquecer o quão eu era frágil em relação à ele. Me sentei tonta à mesa do café. Tirei da bolsa meu livro, e dependurei a bolsa no encosto da cadeira de madeira. Rapidamente, larguei o livro em cima da mesa, acendi um cigarro, e fechava os olhos devagar, quando me atenderam:
- O que você deseja? - me perguntou uma menina loirinha.
- Café. Forte e com açúcar.
A mocinha de roupa curta saiu com um bloquinho de papel na mão, rebolando.
Abri meu livro, mas não conseguia me concentrar em uma palavra se quer.
Não conseguia parar de pensar no ônibus. Não conseguia parar de pensar em quem lá entrou e me deixou. Tirei o cigarro da boca, e amassei-o contra o forro branco da mesa.
E eu chorava. Chorava por ele ter me deixado. Chorava pelo fato de a ausência dele me doer tanto. Chorava, chorava, e chorava.
A mocinha loirosa e bunduda voltou, e colocou a xícara na minha frente.
Esfreguei os olhos com certa raiva, e quando vi, a loirinha não estava mais ali.
Peguei a xícara com as duas mãos, e a única coisa que eu quis foi me afogar naquele café que nem o açúcar eu joguei. Num gole, a xícara estava vazia.
Um ardor incômodo eu encontrava na garganta. Coloquei minhas mãos frias no pescoço numa tentativa frustrada de me aliviar.
Sentou-se alguém a minha frente, sorridente.
- Você? - eu disse, rispidamente pra minha companhia.
- E quem você queria que fosse? - ele disse, ironico.
- Você sabe muito bem quem eu quero, seu idiota! - eu gritei, chorando novamente.
Ele me olhou com certa misericórdia, mexeu no cabelo, suspirou e disse:
- Desculpa, sério, desculpa.
Eu levantei o olhar pra ele, e tentei esboçar um semblante melhor.
Ele chamou a loirinha de volta, e pediu mais dois cafés.
- Desculpa, mas não consigo mais tomar café, não dá mesmo. - eu disse.
Ele me olhou, e deu uma risada curta.
 Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. 
A loirinha saiu rebolando de um jeito no qual eu já me acostumara, e ele acompanhou ela com os olhos por uns segundos.
Eu, para minha própria surpresa, comecei a rir dele.
Ele sorriu de volta, um sorriso que eu descobri que precisava ver naquele dia.
- E então, - ele disse, depois da minha risada- como você está?
- Estou bem, eu acho. Você ficou sabendo?
- Que ele foi embora?
Permaneci calada.
- Fiquei sabendo sim... eu sinto muito. - ele esboçou uma cara triste. - Mas posso te falar uma coisa?
- Pode. - eu disse, em tom baixo.
- Não te tiro o direito de ficar triste... mas espero que você não dê mais tanta importância pra isso.
- Não consigo.
- Ceres - ele respirou-, você sabe o por quê de eu estar falando isso pra você.
- Sei? - indaguei, sem saber mesmo o motivo.
- Eu sei que sabe.
Ele levantou de onde estava, e arrastou a cadeira, com cuidado pro meu lado. Se sentou nela.
- Era aqui - ele disse, olhando para o chão, onde estava-, era aqui que eu estava, do seu lado. O tempo todo. E isso não vai mudar agora, tá bom?
- Que bom. - eu respondi, sem graça.
Ele passou o braço esquerdo em volta do meu ombro; e eu me permiti a deitar no ombro dele, segurando a sua mão do outro lado.
- E quer saber?
- Quero.
- Espero que um dia você sinta por mim o que você sente por ele agora.


p.s.: Este texto é só um conto. Apenas usei meu nome.
Ah, e eu não fumo.

Pauta para o projeto Bloínquês
Imagem: we♥it

11/09/2010

Pra Mergulhar

Parece tão distante de mim tudo o que almejo.
Um amor sem medo, sem receio.
Livre de incertezas. (e gorduras trans)
Um amor grande, bonito, azul.
Um amor desfarçado de mar.
Pra se molhar, pra se banhar.
Pra mergulhar.
Pra se afogar.
E nunca, nunca mais voltar.

09/09/2010

Um por Vinte e três


Ele segurou meu rosto com uma mão só, e foi chegando a boca dele perto da minha. Eu fiquei parada, do mesmo jeito que estava enquanto falava que iria vender toda a minha coleção de revista Capricho. Não queria pensar demais, porque, se pensasse, viraria o rosto. Não pensei, não virei o rosto, e ele me beijou. Me beijou, devagar, do jeito que ele sempre fazia, mas eu tinha esquecido de como era. Ele parou e ficou esperando minha reação. Tentei não esboçar nenhuma. Ele sorriu pra mim, eu sorri para ele, que se virou, e saiu de perto. Suspirei.
Enfiei todas as vinte e três revistas dentro da minha mochila. Estava convicta de que não precisaria mais delas. Estava convicta de que não queria mais saber o que o Justin Bieber ou a Lady Gaga andavam fazendo, e que, meu estilo já estava pronto, dentro de mim, não naquelas páginas coloridas. Fui pesada, vagarosa e falante ao lado da Rúbia; e entramos na loja onde havia uma placa que dizia "vendemos, trocamos, compramos."
No fundo do recinto, onde eu podia ver estava um homem magro e de aparência que quase não me agradava de certa forma. Esperei, calada, que ele me desse atenção.Uma mulher com nome diferente (e que tinha o número começado com 9999) fazia o favor de puxar a atenção do homem, por causa do Freddie Mercury. "Só  Freddie Mercury, o resto não interessa."
Rúbia andava sala afora, lendo gibi.
- Você compra revistas; não compra?
- Compro.
- Eu tenho vinte e três revistas Capricho.
- Não.
- Não?
- Deixa eu ver.
Coloquei, em pilha, as revistas na frente dele, que por sua vez demasiado analisou-as.
- Essa daqui, essa não... - dizia enquanto separava alguma delas.
Depois colocava tudo em uma pilha só, dividia-as novamente... E eu trabalhava forçadamente a minha paciência diante daquilo.
- Dez reais, e essas daqui não. - disse, empurrando uma pilha menor.
- Dez? - olhei pra Rúbia.
- Dez!?
- Dez. - ele repitiu, calmamente, pedindo um balde d'água cabeça afora.
Contei as revistas. Na pilha que ele escolheu, haviam dezessete.
- Gastei 85 reais nelas.
E ele me explicou que precisava de ter mais lucro que eu, e que foi burrice minha gastar tanto dinheiro com revista (minha conclusão).
O telefone tocou, e o magrelo estrábico atendeu com simpatia alguém que procurava um livro do José de Alencar.
- Você pode escolher outra coisa. - disse, desligando o telefone.
Saí sala afora, distraída com aquele mundo de revistas e livros. O cara acendeu as luzes para mim. Feliz Ano Velho, Blecaute, O Meu Pé de Laranja Lima.
Eu ignorava tudo o que me pareceria muito óbvio para opção de escolha.
Conversava com o magrelo enquanto percorria a sala. Rúbia continuou lendo gibi e "rindo feito o Marcos".
O alguém que ligou procurando o José de Alencar apareceu, e comprou o livro.
- Agora o magrelo burguês vai registrar seu lucro - falou de modo irônico o magrelo que pra mim é louco, enquanto digitava em seu computador.
A essa altura Rúbia já tinha se levantado, e se proposto a me ajudar.
Atrás de algumas prateleiras estavam algumas revistas Playboy fazendo montes perto de nossos pés. Rúbia me cutucou com gentileza, e quando eu a olhei, ela apontou para o chão. Analisei aquilo tudo, sem colocar as mãos, considerando o fato de nunca ter folheado uma revista daquela. Estava habituada à Capricho, sabe como é. Vi, escrito de vermelho e em letras grandes a palavra "Cléo", perto de uma coxa carnuda. Cléo Pìres. Não exitei em pegar a revista, e folhear com cuidado.
De algumas coisas você pode ter certeza (caso nunca tenha lido uma Playboy): Não é só pornografia. As fotos são muitos artísticas, bem tiradas e de muito bom gosto. Homens compram revista com conteúdo, de certa forma.
Larguei a revista grossa e proibida no chão, onde estava antes, bem pertinho do meu pé.
Me levantei, e estava, na prateleira: O Beijo.
Peguei, coloquei debaixo do braço, girei por algumas prateleiras ainda, e acabei levando o livro dos beijos. Um por vinte e três. Ele veio solitário dentro da minha mochila, ocupando o lugar das vinte e três revistas Capricho. Tomara que ele seja bom, porque ele me fez lembrar de hoje de manhã. E quer saber? Se ele me beijar de novo, eu não vou me incomodar nem um pouco.

imagem: we♥it
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