15/02/2011

O Acaso


Não sei, me deu vontade de sair de casa.
Dessa forma, pedalando, eu me sentia bem. Estava no nosso lugar favorito, e cada parte daquele lugar me passava de forma rápida, me lembrando aquilo que vivemos aqui. Não vinha desde quando você foi embora. A unica coisa que conseguir fazer desde então foi me contentar com suas lembranças, com sua carta escrita em caneta preta guardada na agenda. Tenho saudade do seu cheiro, do seu sorriso, de você tocando violão para mim.
Assim, eu pedalava. Pedalava para encontrar as minhas lembranças. Dei várias voltas na nossa lagoa favorita, senti o sol invernoso queimando a minha pele, o céu azul e limpo, o vento frio assoprando-me.
Até que vi alguém à minha frente. Um homem. Alto, fardado, de costas pra mim. Ele andava, vagaroso, com uma mochila nas costas, coçando a cabeça. Me distraí olhando para ele.
Devagar, fui parando de pedalar, mas não apertei os freios. Fui deixando a bicicleta me levar.
Quando dei por mim estava com o joelho ralado, e em cima do cara fardado.
- Você voltou? - eu disse para ele.
- Que bom que você está aqui, por pouco não te encontro em casa.
E mesmo com meus sessenta quilos em cima dele, ele sorria para mim. Aquele sorriso que eu tinha saudade.
- O que você está fazendo aqui?
- Nós dois sempre nos atraímos meu amor, lembra? - eu disse, enquanto ele me levantava.
- Lembro sim, querida. - e me beijou.
Ele me levou para casa, me abraçando pela cintura e empurrando a bicicleta.
Depois disso, descobri o porquê de ter saído de casa.
E, aliás, o acaso não existe.
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