30/06/2012

Só deixar


Talvez eu não esteja completamente sã; afinal de contas, tenho dezessete anos e estou farta de sonhar, de planejar.

Por anos fui daquelas gordinhas iludidas, que cedia a concentração pra qualquer um mais sensível que arriscasse a me dar uns beijos. Concentração porque primeiro, não conseguia pensar ou falar de outra coisa. Segundo porque não deixava o coitado (nem ninguém) em paz com aquilo. Todo mundo tinha que saber que eu fui beijada, que eu gostei, e que eu tava muito afim de ser beijada de novo. E claro, quem sabe, com o detalhe de a parte do 'gostar' fosse totalmente recíproca.

Eu tinha a puta convicção que cada cara desses que eu beijei era o amor da minha vida. Que eles iam me beijar, gostar, me beijar de novo, me dar presentes, falar em namorar, ir pedir meu pai (que aliás, é enorme), e namorar comigo o namoro mais lindo e duradouro do mundo.Mas isso não aconteceu. Com nenhum deles.Custou uns vinte e poucos caras, e uns 7 anos.

Até que eu desisti. Beijava, mas agora era só para controlar meus hormônios que agora atuavam de fato. Me chamaram pra sair. Me falaram que gostavam de me beijar. Duvido nada que pediriam meu pai pra namorar comigo; mas agora era eu quem não queria.Sabe qual é o problema disso tudo? Quem eu queria existe. Quem eu esperava apareceu. Sim, problema.E eu nem dei para ele o trabalho de me pedir em namoro. Eu quem pedi.Ir lá em casa? Claro, para apresentar você para meu pai. É, você, meu namorado. Não precisa pedir para ele.

Mesmo achando que tinha certeza que todos eles eram 'o cara certo', agora era de verdade. Quem e quando eu menos esperava.O problema mesmo é que tudo o que planejei eu mesma estraguei na hora H.
Eu não deixei você ser quem eu sempre quis para mim. E cheguei à conclusão de que vou deixar você sonhar por mim de agora em diante, e fazer com que tudo se realize. Sem atropelar, sem forçar. Só deixar.

28/06/2012

nota de 4 de outubro


Pensando em como sempre consegui escrever e agora não mais; estava lendo meus posts antigos e esse me chamou a atenção (leia aqui).

Cheguei à algumas conclusões: No texto eu falava com indignação sobre o fato de ainda ter que voltar para BH toda semana. Agora isso é uma coisa que não me incomoda mais, porque tem um bom tempo que eu não vou lá e realmente já acho que Sete Lagoas é o melhor lugar do mundo (falem o que quiser).

Sinto saudade, sinto aperto, fico triste por não fazer mais parte da vida de cada um que ficou.
Mas sabe o que acontece? Daqui um tempo vou sentir é falta disso e mais um tanto.
Eu cresci. Para mim agora, passado serve para confortar (ou bagunçar) o coração. Serve de experiência.
Agora 4 de outubro é puro e simplesmente aniversário da Ana (nossa colaboradora aqui no blog), dia dos animais, e três dias depois de passar mais um ano com o Matheus.

Aprendi a lidar melhor com o tempo. Agora eu sei que temos a eternidade toda para crescer, e sofrer com isso é apenas opção. Viver todos esses "quatro de outubro" foram uma delícia, mas não quero que eles se repitam. Não quero retrocesso. E estou feliz assim.

Pronto. Agora eu sei porque eu não escrevo como antes: é porque eu mudei.


26/06/2012

Perdidos


E todos esses sentimentos? O que faço com eles? Quando me disseram que eu podia mudar o mundo, eu acreditei. Mentiram pra mim. Pois bem, e quantos não já fizeram isso? E quantos não irão fazer novamente?
Na tentativa, frustrante, de encontrar um caminho pra seguir, de crescer, de descobrir quem eu sou, só me decepcionei. Mais uma lição a se levar pra vida.
Nós chegamos na idade adulta de paraquedas, sem saber o que esperar dela, sem saber o que fazer. Então, eu sigo o padrão: trabalhar pra sobreviver?
Não é de se surpreender que muitos constroem muralhas de sacos de areia para se esconder. Mas não há saída, não há como fugir dos problemas. Eles vão estar com você. Então, se deve tentar por a cabeça em ordem e enfrenta-los?
Mas, o que eu faço com os meus sonhos? Meus planos? Minha vontade de algo melhor para aqueles que me cercam?
Quando me iludiram, dizendo que eu podia mudar o mundo, dizendo que meus sonhos eram coletivos, eu me animei. Por que mentiram pra mim? Por que eles mentem pra si mesmos?
Nessa triste realidade que vivemos existe sempre uma "burocracia". Nessa realidade que vivemos nada chega perto de ser lógico. Na cabeça desses, 2+2 é igual a 5. Um mundo do qual nunca vou entender.
Não é de se surpreender que há pessoas que se escondem da vida. Eu devo ser uma dessas pessoas?
Sei que ninguém respondera essas perguntas por mim. Sei que tudo se move a partir de perguntas.
Então, eu aceito o desafio de procurar minhas Respostas!

25/06/2012

Apaixone-se por Arthur Rimbaud

Algumas semanas atrás, eu estava viajando por um dos meus blogs de literatura preferidos e de repente encontrei um post falando sobre jovens brilhantes escritores ao longo da História. Obviamente, eu cliquei no link e a partir daí sucedeu-se vários dias nos quais eu estive maníaco por um escritor, ou melhor, poeta em especial: Arthur Rimbaud. Decidi então, finalmente, criar um post aqui falando um pouco do que eu descobri nesse meio-tempo sobre esse maravilhoso poeta do final do século XIX.

(Rimbaud aos 17 (?) anos)

O que fez com que eu viciasse no Rimbaud? Para ser sincero, como toda lenda do mundo literário, o que despertou meu interesse por ele foi mais sua vida pessoal. Mas o que tinha a vida do Rimbaud de tão especial? Bom, começando pelo fato que ele fez enorme sucesso na França antes mesmo dos vinte anos (sim, ANTES DOS VINTE ANOS! Vocês têm noção do que é um escritor ser renomado antes dos vinte?), ganhou fama de rebelde e então abandonou seu sonho para viver suas próprias aventuras e desventuras, digamos assim.
            
Comecemos do princípio: Arthur Rimbaud nasceu em outubro de 1854 em uma fazenda em Charleville, na França. Era o melhor aluno de seu colégio voltado para a alta burguesia, dizendo que quando crescesse se tornaria explorador. Em 1870 fugiu para a Bélgica mas foi barrado e preso, sendo salvo pelo seu professor da época, que o mandou de volta a Charleville. Rimbaud então fugiu de novo e de novo é mandado para casa, desta vez com sua mãe tendo enviado uma intimação judicial ao professor. Deixou o cabelo crescer e acabou sendo ridicularizado pelos outros garotos da época.

(Paul Verlaine)

Rimbaud fez então amizade com um alquimista, Auguste Bretagne, que enviou seus escritos ao poeta Paul Verlaine, famoso nos meios cult da época e amigo de Bretagne. Verlaine decide então receber Rimbaud em sua casa, em Paris, e começa aí toda uma emocionante história que chegou inclusive a ser um filme estrelado por Leonardo DiCaprio em 1995, chamado Total Eclipse (ou, em português, "Eclipse de uma paixão", que acho um título mega piegas) que eu recomendo mil vezes (você pode assisti-lo completo no Youtube por aqui, se lhe interessar).

(Leonardo DiCaprio interpretando Rimbaud em Total Eclipse)

Pois bem, a partir daqui vou fazer um resumo bem menos detalhado da história da vida dele porque as coisas ficam um pouco menos lineares e, principalmente, estraga boa parte da surpresa de quem for se dar ao trabalho de assistir o filme acima. Mas como eu dizia, estamos em 1871, quando o casado Paul Verlaine se apaixona por Rimbaud e passa a agredir sua jovem esposa. Havia nessa época uma reunião de poetas parnasianos que, na primeira vez em que Rimbaud se encontrou com eles, logo ficaram impressionados com o garoto; entretanto, na segunda reunião, Rimbaud começa a interromper um dos outros artistas que apresentava um novo poema, ridicularizando-o e dizendo coisas como "que merda". Acabou sendo expulso do grupo (os Vilões-Gentis-Homens (?)) e também do Círculo de Zutique (outra reunião de artistas, dessa vez num hotel com absinto, haxixe, bagunça e bebidas à vontade) por seu "inconveniente senso de humor".

(Reunião dos poetas, Verlaine e Rimbaud à esquerda)

Verlaine e Rimbaud então largam tudo e começam a viver uma vida miserável em Londres, em 1872. Rimbaud inconveniente e ácido, Verlaine abusando de bebidas alcoólicas: brigas e discussões se tornam cada vez mais frequentes. Por fim, Verlaine compra uma arma e após discutir com o outro, lhe dá dois tiros no pulso. É preso por dois anos, quando então se torna "clemente a Deus". Enquanto isso, Rimbaud escrevia "Uma tempestade no inferno", sua única obra lançada por si próprio (e aliás, última obra, sendo de 1873). Verlaine é solto e os dois ainda voltam a se encontrar, mas o ex detento, ao tentar fazer o jovem se converter religiosamente, acaba irritando este.

(uma das fotos de Rimbaud na África, anos após abandonar sua carreira de escritor)

A partir de então há poucos registros de notável veracidade sobre Rimbaud, mas o que se sabe é que ele se meteu em uma série de viagens na África, onde se torna comerciante e até mesmo traficante. Enquanto isso, Verlaine publicava as obras que Rimbaud havia escrito e nunca lançado. O poeta, agora explorador, tem um câncer no joelho e acaba amputando a perna após voltar para a França. Foi cuidado pela sua irmã Isabelle até morrer em 1891, aos 37 anos.

(Túmulo de Rimbaud)

Enfim, espero que tenham gostado dessa minha primeira crônica no blog. Fiz o possível para ser o menos maçante possível apesar de ser uma biografia (bem sintética) e tratar de datas e tudo o mais. Pelo menos apresentei a vocês um maravilhoso poeta que eu recomendo a vocês procurarem sobre ele, e apresentei um pouco melhor dos meus gostos também. Voltarei semana que vem com o primeiro de uma série de posts que passei vários dias preparando para vocês, explicando um pouco sobre os jovens de cada década (a partir dos anos 50) e o que eles têm a ver conosco. Até a próxima (:

21/06/2012

Amadurecer


Mesmo que ha alguns anos alguém tivesse me contado que amadurecer era tão doloroso e que escapar de problemas familiares é (im)possível, eu continuaria sem me sentir preparada para a vida. Esperar por esses obstáculos não é a mesma coisa que ir tendo maturidade para enfrenta-los. Não saber como enfrentar e como modificar a sua vida perante a essa situação é doloroso, estressante e a raiva reprimida parece querer nos acompanhar em todos os caminhos.
Quando ao seu redor parecem só haver problemas é difícil enxergar dentro de si, é difícil enxergar que as vezes os problemas somos nós quem criamos e que não sabemos lidar com nada. O medo, mesmo que imperceptível, torna tudo em um monstro.
Lembra daquele filme "Onde Vivem Os Monstros?" É a mesma coisa conosco... os nossos monstros somos nós.
Eu tenho tido muita dificuldade pra descobri-los e domina-los, dificuldade de lidar comigo mesma e estou com muito medo de descobrir quem eu sou. Não quero descobrir que eu me transformei em algo que eu nunca quis ser.
O pior de estar frustrada comigo, é frustar e decepcionar as poucas pessoas que sempre me apoiaram quando eu sentia não ter mais nada.
Quem eu sou agora?

19/06/2012

Tatuagem


Entrou no quarto de Marcelo e mirou-se no espelho. Natália estava corada, mas sua maquiagem continuava perfeita. Seus lábios estavam ainda mais vermelhos do que antes, um rubro de rosa recém nascida, e seus olhos continuavam com um marcante contorno negro cor de noite. Ajeitou seu cabelo por inquietação disfarçada e sentou-se na cama.

Olhou para as paredes personalizadas do quarto. Havia pôsteres em cada canto que se era possível enxergar, sendo Marcelo um grande fã do rock. Havia uma quantidade tão grande de bandas ali penduradas que Natália começou a se perguntar se alguma delas não seria item de colecionador, raridade que qualquer músico daria o sangue para ter. Em meio a tantos heróis musicais, a garota não conseguia deixar de se sentir uma leiga. Se perguntou se era mesmo tão merecedora de estar com Marcelo, se a dona do coração dele não deveria ser outra.

Ele então entrou no quarto e trancou a porta. Olhou-a daquele jeito mais Marcelo impossível de olhar, e ela correspondeu. O rapaz estava com uma regata escura de aparência desleixada mas que, quando se olhava melhor, qualquer garota reconheceria o quão estilosa era: tinha algumas estampas de fotos antigas e seus cortes nas magas e na gola eram daquele tipo de corte caseiro mal feito. Natália jamais usaria uma roupa com um corte como aquele, mas vê-la em alguém, em especial alguém como Marcelo, fazia com que algo em seu corpo gritasse em reconhecimento a tamanha beleza. Entretanto, ela sabia que tudo aquilo era natural. Marcelo só usava jeans velhos e surrados e gostava de cortar a maior parte de suas roupas. Tinha sempre aquele aspecto de sujeira natural, entretanto maravilhosamente bela. Seu próprio quarto tinha pichações nas paredes que davam essa sensação.

Natália pegou a garrafa da mão direita de Marcelo, seu amado Marcelo, como podia ser assim tão belo? e tomou um gole. Dois goles. Três go-ei! onde você pensa que vai desse jeito? Ele interrompeu puxando a garrafa de sua mão. Deixe pra mim, pô. E tomou um gole. Natália recuperando-se da zonzeira do abaixar-se repentino de cabeça, tentou pegar a garrafa de volta. Marcelo, que já estava sentado a seu lado na cama, se aproveitava e afastava a garrafa para longe dela com o braço, ou então para o alto, enquanto a garota insistia em tentar pegar. Um magnetismo repentino impediu os dois de continuarem a brincadeira, e Natália percebeu estar ajoelhada entre as pernas do outro.

Os dois se olharam um olhar que expressava tudo, uma emoção tão grande que não demonstrava outra coisa senão a história dos dois. Não namoravam e não queriam namorar. Estudaram juntos por algum tempo e de repente, há alguns meses, os laços de amizade e toda uma série de coisas em comum entre eles acabaram por reaproximá-los. Marcelo se tornou um cachorro, foi a primeira conclusão de Natália. Na segunda ele era um cachorro interessante, um cachorro com papo. Na terceira eles já eram amigos e de papo em papo confidentes. Concluíram que Natália afinal não era melhor que ele em nada, pois em dignidade ambos eram igualmente ruins.

Naquele tudo do olhar repentino Marcelo reconheceu por fim a garota com quem estudara e que nunca era vista sozinha. Reconheceu a insegurança daqueles olhos que pareciam implorar para que ele a possuísse e a pegasse para si. Não era uma insegurança de garota mas agora uma insegurança de mulher. Natália agora tinha necessidades de mulher, e num ímpeto o garoto que agora era homem aquiesceu a tais necessidades. Suas línguas dançaram no ritmo certo, numa sede de quem não prova água tão saborosa há muito.

Natália sempre intrometida interrompeu o beijo feroz e tomou o maior gole de vinho que sua boca conseguiria aguentar. Olhou para os lábios de Marcelo manchados de seu vermelho de rosa juvenil, e fê-los abrir-se suavemente. Encheu também a boca dele, como se abastecesse suas providências para um longo período de viagem. O homem então engoliu o álcool do amor de Natália. Temporário ou não, ele estava sendo entregue com uma paixão que a muitos namorados faltavam; não poderia ser outra coisa senão amor.

Os dois jogaram-se então na cama, a mulher encurralada sofrendo as agonias de sentir seu desejo consumando-se com ela em estado de prisão. Queria lutar, mas queria mais que isso ceder. Não queria bancar a feminista agora, pois não conseguia sentir outra coisa senão desejo por enfim ter Marcelo. Enquanto sua garganta era acariciada pelos lábios dele, ela perdeu-se em sonhos que de alguma forma eram tão reais - ou seria uma realidade que de alguma forma era onírica? Sentiu os fios do cabelo de Marcelo fazendo cócegas em sua face, a barba em sua clavícula. Agarrou-se ao braço dele e perdeu-se em meio às cores de suas tatuagens. Não quis fechar os olhos, preferiu olhar para o nada e sentir-se sendo unida enfim ao corpo do homem. Queria ser cor, queria ser tinta. Queria sentir-se a pele dele. Natália queria, de alguma forma, que aquele momento jamais terminasse, queria unir-se e se tornar as tatuagens de Marcelo.


14/06/2012

Transição!


Não sei se todo mundo sabe, mas sou adepta da escova à 12 anos. E eu tenho 17.
Sempre fui uma pessoa muito autocrítica e que se enche de defeitos, é assim desde que me conheço por gente. Hoje em dia sofro com ponta dupla, com raiz inchada, com secador, com chapinha... e juro que fico me perguntando o que tinha de tão errado com meu cabelo que com 5 anos de idade a minha mãe resolveu deixar ele liso. E o pior é que a culpa não foi dela. Era eu quem reclama, que achava feio.

Hoje entrei no facebook, e estava marcada em um link com o seguinte vídeo:




 

E ele me tocou bastante, porque eu sei, que no fundo, além de desgostar do meu quadril, das minhas coxas, eu também desgosto do meu cabelo cacheado (que aliás, eu nem lembro como é), e o escondo.
Não é que eu não goste de ser negra. Minha cor é linda... mas nem sempre achei isso.

Talvez um dia eu supere essa coisa de cabelo do mesmo jeito que eu superei essa coisa de pele. Devagarinho, e aprendendo a gostar. Sendo confiante. 
Sou fascinada por cachos, e por quem os assume, também. E quero mesmo um dia me amar o suficiente para fazer isso.

Fico namorando meu cabelo molhado, com três dedos cacheadinhos perto da raiz... e meu coração aperta.
Vou continuar criando coragem, bem devagarinho, para um dia ter meu cabelo de volta.

Enquanto isso queria dizer que você, Zina, e todas as meninas que conseguiram fazer isso, que vocês têm uma fã.





Não é só uma questão política, de movimento. É questão de se aceitar e se amar, simplesmente.

(E essa sou eu, quando ainda não ligava pra essas coisas.)

Zé da calçada


As folhas nunca deixavam de cobrir o chão. Tão exaustivo para José ter que varrer sua calçada todos os dias. Maldito outono!, ele dizia, Maldito outono!, ele pensava. Maldita estação que só serve para me dar mais trabalho!
            
Mesmo assim, todos os dias José acordava cedo para varrer a frente da sua casa, para deixar tudo limpo e bonito. Não podia deixar que as pessoas que passassem pela sua rua, ou até mesmo seus vizinhos, achassem que ele era um imundo. José encarava as folhas pensando o quão bom seria se elas fossem dinheiro. Ah se fosse dinheiro aquela enorme árvore podia se acabar e ele nunca se reclamaria de ter que varrer todas aquelas folhas! Mas não, nem isso a natureza fazia por ele.
            
Todos os dias olhava para os galhos secos e velhos lá no alto, em contraste com um céu cinzento. Encontrastes com o céu cinzento tu, José, diziam as nuvens. Cinzento por não deixar que o sol encontres contigo, que de tanto se esconder em casa já não sabes o que é luz. José ignorava e voltava a varrer as folhas meio vivas meio mortas.
            
Você as odeia porque no fundo sabe que elas são você, um segundo José pensava dentro dele. Meio vivo, meio morto. Meio dourado meio escurecido. Caído, apenas esperando ser varrido. Esperando adoecer e usar isto como desculpa para seu medo de continuar vivendo.
            
O sol não nasce para quem não o quer, o vento começou a soprar em seus ouvidos todos os dias. A luz não brilha sobre quem não luta. Ninguém se importa com os guerreiros que antes do início da batalha já se fingem de mortos: uma hora ou outra, no furor que está por vir, o guerreiro acabará meramente esmagado. Tu queres dinheiro sem ter o que fazer com ele. Queres tudo para si sem motivação.
            
Zé não deixou-se abalar. Todos os dias limpava sua calçada, limpava as folhas que afinal o eram. Decidiu ignorar as nuvens, decidiu ignorar os ventos. Continuou nisso mesmo apesar das insistências de que ele era afinal tão vaidoso para com seu jardim por achar que nada mais valia a pena a não ser morrer como sendo o homem da calçada bonita. Os ventos lhe diziam que sua vida era miserável, que sua teimosia deveria mudar.
            
O homem não deixou-se abalar. Sentia-se fraco, sentia-se sozinho, sentia-se judiado. Jamais deixaria de ser o José do cotidiano que nada mais fazia a não ser um café e esperar pelo dinheiro de sua aposentadoria, não fosse o dia em que enfim aquela árvore velha caiu na frente de seu portão. Me tire agora, dizia o enorme tronco. Se não me queres em seu caminho pois use sua força e me empurre, me leve para longe. Sou tão fraco, José retrucava, não sou nada perante a força da natureza. Não é isto que queres me mostrar? Pois agora não saio mais de casa, ótimo.
            
Ele viu sua fama ser levada embora enquanto isolava-se em sua miséria. O carteiro não conseguia chegar em seu portão para lhe entregar as correspondências, ele não conseguia receber visitas e sequer ir pegar seu dinheiro no banco. O governo demoraria demais para retirar aquela maldita árvore dali. Aos poucos o Zé-da-calçada-limpa ganhava a fama de a pior calçada da vizinhança.
            
Um dia o sol colocou-se sobre sua cabeça. O dia estava lindo e ele se sentia jovem. Sentia raiva, como quando era jovem e combatia na guerra. Notou finalmente o quão miserável era o seu viver amedrontado e recluso, ignorante demais para perceber que os tempos eram outros. Lembrou-se que não era tão coitado como havia se convencido de que era com os novos tempos chegando junto com as rugas. Notou então que sua vida sempre fora a guerra e a batalha. Se o governo não precisava mais dele, se ninguém precisava mais dele, José teria que fazer por si. Sua casa era sua única parceira e o tronco então seu inimigo. O Zé da calçada compreendeu então que o tronco estava lhe reensinando o que era viver ao passo em que agia como seu inimigo, mas era inimigo porque ele o fizera assim.
            
A árvore afinal era o homem, ela se punha contra ele porque ele se condicionou a ser inimigo dela sem razão. O homem decidiu então que removeria aquela árvore para o seu bem, mas plantaria outra exatamente no lugar onde aquela antes estivera. Os raios de sol o fizeram enfim compreender que a natureza, dele e de tudo, fora feita para ser eterna e não lamentada.


13/06/2012

Inspiração: Tatuagens

Para declarar seu amor, para mostrar do que gosta, para defender uma causa.
Quem nunca quis se tatuar?









 Um dos posts mais visitados no blog tinha exatamente esse título. Mas as fotos dele começaram a dar erro, então resolvi fazer um 2.0.
E então? Gostaram? Qual é a sua tattoo favorita?

12/06/2012

Então temos tudo!

 

Pra você

Não que eu te amasse menos nos outros dias, mas hoje meu peito está queimando.
Talvez seja pelo fato de hoje ser um dia rotulado para ser nosso; e que ultimamente (mais exatamente um ano e oito meses, onze dias e dezesseis horas) nós estamos mais felizes, porque estamos juntos.
Por isso, penso seriamente em realizar de fato todos os planos que fazemos juntos.
E estou falando de todos mesmo, desde a estante de livros na sala da nossa casa à nossa filha (que vai se chamar Celina).
Eu quero isso pelo fato de nunca ter amado alguém dessa maneira. Estou falando de se sentir amada também. Estou falando de saber que estar com você foi o que eu sonhei a vida toda.
Enfim, para não perder o costume, eu te amo.

06/06/2012

Cinema: My Sister's Keeper

Não sei vocês, mas eu adoro falar sobre filmes aqui no blog. E essa semana eu assisti My Syster's Keeper (Um Prova de Amor, em português).
Muita gente já deve ter visto (ele foi lançado e foi para as locadoras em 2009), mas vale super a pena.

Baseado no livro de Jodi Picoult, o filme retrata a vida de uma menina com leucemia. Suas dores, seus sentimentos, seu relacionamento com a família. Retrata o amor de uma mãe que é capaz de dar tudo, e enlouquecer pela saúde da filha. My Sister's Keeper é um filme que fala sobre o amor de uma família que aprendeu a viver com uma doença.

O que eu mais gostei, é que o filme trata com riqueza de detalhes a vida da garota, e faz com que a gente sinta com ela (e a família) tudo o que eles passaram. Assim, o filme se torna muito convincente.

Elenco:
Cameron Diaz (Sara Fitzgerald)
Abigail Breslin (Anna Fitzgerald)
Sofia Vassilieva (Kate Fitzgerald)
Jason Patric (Brian Fitzgerald)
Alec Baldwin (Campbell Alexander)
Joan Cusack (Joan De Salvo)
Evan Ellingson (Jesse Fitzgerald)
Thomas Dekker (Taylor Ambrose)

O trailler está em inglês, mas está em HD e dá para ver direitinho do que eu to falando!







E quem já assistiu? Gostou?


Jardim das inocências juvenis



Sabe, a vida é gozada. Como podemos sentir dores e pesares de meros dias que passaram insignificantemente como se eles tivessem sido essenciais em alguma coisa na nossa vida? Por que às vezes sentimos saudades de pessoas que nunca conhecemos, de situações que nunca vivemos? Dá um aperto no peito às vezes ver aquelas fotos de meros conhecidos que você via todos os dias, ver fotografias recentes e constatar o quanto as coisas mudaram, o quanto as pessoas estão diferentes. Você sente falta de coisas que nem sabia que iria se lembrar no futuro.

Novos cortes de cabelo, novas roupas, novos amigos, novas experiências, nova rotina, novas formas de pensar. E de alguma forma você sente falta como se faltasse um pedaço de si próprio. Parece que algo está incompleto, que tudo precisa voltar ao normal para só então o seu destino se encaixar. Mas, de alguma forma, seus rumos parecem estar sempre tão conectados com o daquela pessoa, você parece estar seguindo um mesmo caminho por uma via diferente... e tudo o que quer é que esse muro seja quebrado e aquela pessoa desvie de rua, venha para a sua para lhe dar um abraço bem apertado e mostrar que continuamos todos os mesmos no jardim das juventudes inocentes.

Ah, aquele sol da manhã. Aquele vento fresco. Aquele olhar, aquela sensação, nada jamais será igual. Às vezes passa-se pelo seu corpo um sopro parecido, mas nada se compara àqueles ares. Aqueles cheiros. Aquelas sensações. Por que tudo tinha que mudar? Por que não podemos simplesmente voltarmos a ser o que éramos? Maldito dia em que fomos feitos seres humanos, sempre tão tolos e ambiciosos, jamais se contentando com o Éden. Os habitantes dos céus devem ser realmente misericordiosos por nos darem o privilégio de sonhar com os tempos em que tudo era um pouco menos pior. Maldita maçã que nos dera consciência de quem somos, pois quão penoso é se lembrar de um paraíso perdido.

Sim, as memórias. O peso do mundo seria tão menor se não as tivéssemos... mas também jamais nos lembraríamos dos deleites que tivemos. Sem memória seríamos então incapazes de valorizar as coisas? O grande aprendizado da vida então é perder eternamente até se ter as plenas noções de valores? Pois refletir sobre isso agora não me trará frutos, creio. Não me trará de volta o kairós e não nos levará de volta ao jardim das Hespérides. Deveríamos termos nos agarrado forte enquanto havia tempo, não deveríamos jamais termos experimentado sono tão profundo, distantes eu e você, pois fora durante esse nosso entorpecer que as barreiras foram criadas impossibilitando um novo encontro de nossas almas. Deveríamos termos nos agarrado e dormido juntos naquelas e em todas as outras noites da eternidade.

Almas, tantos conceitos. Afinal, seria possível todos estes meus eus se reunirem em um só e se reencontrarem com o seu eu unitário e com todos os outros com os quais de alguma forma estaríamos conectados? Mas mesmo entre os adeptos de tal teoria, há as pessoas boas e ruins. E se não pertencermos ao mesmo grupo? E se alguns de nós enfim conhecer os tais campos elíseos e os outros meramente apodrecerem no tártaro? Essa nostalgia do nada jamais cessaria? Pois talvez nada exista, e esse nada seja o tudo. Afinal, nos reencontraríamos após a morte e assim a muitos outros pois afinal seríamos nada. Todos nós, um conjunto de nadas que a lugar algum iríamos, já que não existiria bem ou mal. Simplesmente inexistiríamos, mas ao menos inexistiríamos juntos.

03/06/2012

Seja presente




Já ouviu falar em viver intensamente? Provavelmente sim. Mas já pensou em levar esse conceito à sério? Loucura? Claro que não. Isso não é um texto de auto ajuda, é sobre como "estar vivo", significa muito mais do que o ato de respirar. E se for procurar por pessoas de qualquer idade, a reclamação é sempre a mesma: a vida é injusta. O que não percebemos é que somos injustos com nós mesmos quando dizemos isso.

Acredito que todo ser humano tem que perguntar para si mesmo todos os dias: o que faço da minha vida me deixa realmente feliz? Pois bem, deixamos que o medo, a insegurança, as preocupações do que os outros podem pensar nos impedir de ser quem desejamos e fazer o que gostamos.

Temos que pensar o seguinte: vale mesmo a pena perder uma vida inteira de prazeres e felicidade para preservar a boa imagem? Eu afirmo que é besteira! Bom mesmo é acordar em plena segunda feira de manhã e ir à um bar para variar. Chegar uma vez na vida atrasados em algum lugar não faz de você uma pessoa sem compromisso. Ver o nascer do Sol num lugar distante na quarta feira sabendo que tem tarefas importantes no outro dia, isso não vai te fazer mal. Não vai fazer se você esquecer o futuro um pouco e viver o presente alguns instantes.

Isso te torna mais vivo. O que quero dizer aqui, amigos, é que não é para que vocês se tornem pessoas rebeldes, mas sim mais presentes no mundo. Se abra à ideias novas a todo momento, aceite mudanças, saia da rotina, seja feliz! E bom começo de semana.
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