31/07/2013

Sobre encontrar o amor da nossa vida

Ouvi dizer por aí que pessoas que começam a namorar mais tarde têm casamentos mais duradouros e felizes.  E isso não está errado não. Às vezes nós amamos rápido e demais. Desconhecemos - esquecemos - que coração caleja, coração peleja; e depois é difícil amar de novo. Dói. (Confiança? Nunca mais sente nem cheiro!)

Nós amamos do jeito certo o amor errado. Por isso que depois vem outro. Daí são duas as opções: ou sana tudo, ou enfiam o dedo na sua ferida em carne viva - e sim, a segunda opção é mais provável. Então, mesmo que o meu coração seja desses feios de tanto calo, eu prego o clichê de que nunca é tarde para amar. E completo: não tenha pressa, ele chega. 

- Mas Ceres, eu já amei tanto, e agora? Sou um caso perdido?

Olha, boa pergunta. Eu também não sei. Passei da fase de fazer listas com o nome de um por um, mas isso não anula a existência desse exército na minha vida (ou será um batalhão?). Bom, de qualquer forma, eu acredito que o segredo seja não desistir. Poxa vida, termos adiado o amor da nossa vida não faz com que ele não exista. Debaixo de tanto calo tem a lava fervente do amor! Sempre terá! E o melhor: vai ter quem queira nadar nela. 

- Gente, isso é sério? Eu amo alguém! O que eu faço?

Simples. 
Diz. 
E espera. 

- E se der errado?

Desespera.
Mas relaxa, que a gente sempre se recupera.


imagem: pinterest

29/07/2013

Escolhas


"Entristecedora" é uma palavra com uma sonoridade doce e não é uma pena que ela seja sobre a tristeza. Existe um pesar para falar sobre a tristeza e acho este, um senso comum desnecessário. Acho a tristeza bonita também. Acho, que valorizamos tanto ser feliz que a tristeza vira uma coisa ruim e não precisa ser assim. Ser feliz é ótimo, mas ser triste pode ser lindo também.

A tristeza é necessária também e a forma que lidamos com nossos sentimentos é puramente pessoal, cada um se transforma e redireciona suas emoções em diversas formas e caminhos diferentes. É bom se lembrar que é sempre uma questão de escolha, e que até a felicidade em excesso pode fazer mal como a tristeza. O perigo está nos excessos, mesmo quando ele parece não existir.

Somos como imãs, atraindo sempre coisas de diversas naturezas e extremidades, as vezes imperceptíveis até elas nos engolirem e mostrarem sua força. O que você atraiu pra sua vida e manteve, e o que repudiou são só as escolhas que fez.

27/07/2013

Torre de marfim

Eu deveria perder menos tempo escrevendo livros e mais tempo escrevendo testamentos. Muitos anos perdi tentando me livrar do fantasma dessa dor e transformar tudo em arte. Minha vida, meu redor, meus sentimentos e pensamentos. Tentei dar beleza a esses tormentos. Infelizmente, porém, nem os melhores dos recursos escondem quando um artista é demasiadamente ruim. Pintei com cores e palavras bonitas e nem por isso a depressão teve fim.

Essa arte malfeita é tudo o que me resta agora. Preso na escuridão, esse negro da tinta é minha caneta que chora. Não adianta enfeitar as coisas quando nossa vida não melhora. Rodei, rodei e tudo continua igual. Sozinho em casa, permito que dos meus olhos minha língua experimente o sal. Deixo tudo escorrer enquanto ainda não posso correr. Ou morrer.

Muito eu falei e bradei mas com o tempo já me esqueço novamente o porquê de estar aqui. A arte ainda não tem um sabor muito mais doce do que outras mentiras que já ouvi. Talvez seja para combinar comigo essa amargura. Logo eu que em delírios de desespero desejei provar alguma coisa pura. Acho que a pureza é mesmo assim feia e por isso tanto essa angústia me incendeia.

Agora que eu finalmente alcancei o dom de ver a beleza na alegria e na tristeza, vejo que isso não basta. Não me trouxe nada além de lembranças e farsas. Mas eu demorei tempo demais para ver o quão ridícula é essa minha razão de viver -- não menos ridícula que qualquer outra. A quantidade de bens que pode me fazer é pouca. Na melhor das hipóteses me tornarei apenas mais um louco exilado, numa torre de marfim, ilhado, por tudo e por mim.

Me chateio com os deuses. Me sinto uma pessoa boa e não consigo imaginar o que fiz em meu destino que me tornasse merecedor de toda essa solidão, ou, pior ainda, da longevidade dessa minha visão. Eu não queria saber antes de tudo o que iria acontecer. Nem poderes para mudar as coisas eu pude ter -- se tivesse, talvez o futuro eu não soubesse. Me sinto único, mas não de uma forma atraente. De que serve isso no meio de tanta gente? Por que este mundo então, se não me é dado o direito de ser como qualquer outro? Devo abrir mão de tudo o que sei e me alienar como todo mundo faz? Ou, essa bagunça que sou, é um sinal de que devo de fato ir pra minha torre de marfim, cuidar só de mim, ir em busca da paz?

Se assim o for, não sei de que me adiantou tanto ver ou pintar o belo do mundo se, passado esse calor, não poderei o ter e minha alma escreverá mais um livro que permanecerá mudo, no meio de tantos outros, imundo.


24/07/2013

"É o meu sonho."



- Alô?
- Oi meu amor!
- Tudo bem?
- Sim, e com você?
- Que bom! Estou bem, mas sinto sua falta.
- Eu também! Como foi seu dia?
- Foi ótimo, pensei sobre aquilo que você me disse.
- Pensou mesmo? E o que resolveu?
- Eu quero, mais do que nunca, que fiquemos juntos.
- Meu Deus, você não sabe o quanto isso me faz feliz!
- Eu também estou!
- Vem cá, você viu a Lua hoje?
- Sim, estou olhando para ela agora.
- Eu também...
- Sabe, às vezes eu sonho que estou entrando na sua casa; mas nunca te encontro. Acredita?
- Vai ver que a gente se desencontra, porque eu estou aí te guardando a noite toda.
- Estamos tão perto um do outro, existe mesmo a necessidade de esperarmos por nossos sonhos?
- Concordo com você... Me espera no portão?
- Você vai vir me ver?
- Não quero aguardar até conseguirmos dormir para te encontrar.
- Então vem, me encontra agora.
- Deixa eu me deitar aí, e sonhar contigo?
- Claro... É o meu sonho. Vem ver a Lua daqui, comigo.

23/07/2013

Literal - mente


Fecho os olhos para poder te ver melhor. Me cubro com aquele cobertor velho para finalmente te sentir debaixo dele. Uso das minhas próprias mãos para ter o teu carinho. E ali fico te amando, por horas a fio.

Me desvencilhei de você fisicamente, mas literalmente, meu coração está contigo. Sinto seu cheiro independentemente da sua vontade. Sinto você - mais da minha metade. Meu amor, meu amor é alheio à você. Ele é literal, mas só aqui. Só comigo, só para mim.

Nunca saberá o que eu existo de você aqui. Jamais saberei o que por mim habita em ti. 

Fecho os olhos novamente e vejo tua pele, tuas cores, tuas coxas, teus pés. Os abro e ouço promessa por promessa, gargalhada por gargalhada, meu nome no teu timbre, no teu tom, no teu ritmo; no meu contratempo. 

Me abraço e desapareço nas minhas próprias mãos, desfaleço no meu próprio cárcere. Sinto o cheiro da nossa carne. Do nosso suor. Lembro-me de onde escondi o resto do pudor que havia em mim (dentro de ti).

Meu amor é literal. 
É fogo, é dor - em mim.
É o resto do que não faz falta - sou eu.

20/07/2013

Por que você não volta, Júlio?

Nós demos a corda a eles e como numa ópera eles a enroscaram no próprio pescoço. Um julho sangrento, um Júlio sangrento, um Júlio suicida. Eu poderia culpar as drogas que você usava, eu poderia culpar as drogas que você traficava, mas eu saberia no meu pequeno pedaço fantasma, o pedaço de você que continua em mim e que permanecerá eternamente de luto, que isso não seria bem a verdade. Eu ainda saberia que fomos nós que o matamos.

Por alguma razão eu tive medo de me aproximar enquanto ainda havia tempo, por alguma razão eu apenas fiquei escutando de fora, atuando em um cenário próximo, vez ou outra ouvindo um eco que chegara do seu campo de atuação ao meu. Vez ou outra eu via uma fotografia sua, notava que eu estava ficando mais alto, notando que eu estava ficando maior; só não notei que enquanto eu crescia, você diminuía. Você definhava enquanto aparentava estar melhorando. Oh Júlio, por que tiveste que ir agora? Haveria algum sinal nessa sua partida repentina, nesse choque que você supostamente escolhera deixar para trás?

Eu queria que você tivesse me procurado. Não para dar um aviso, não para alertar sobre uma possível viagem a um negrume desconhecido; queria que você tivesse me dito apenas o que estivesse sentindo. Eu queria ter sido seu amigo, pois me agoniza pensar que posso ter sido um dos móveis no seu quarto que apenas assistiram à sua queda, eu me sentiria melhor sendo o papel ao qual você confidenciara suas últimas vontades ou o último caixão de madeira ao qual você repousara. Talvez eu gostaria de pensar que posso ter sido seu último amigo.

Mas esse é o único problema da morte: notarmos o que poderíamos ter feito e não fizemos; imaginarmos quais foram os últimos pensamentos, as últimas sensações, os últimos sentimentos do corpo enquanto ainda vivo; pensar em quanto tempo será que se passaram os últimos segundos, como fora que as engrenagens pararam de funcionar de repente... e o simples fato de imaginar já pára tudo. As coisas se movem mais devagar e a gente fica sem reação, como se a nossa parte que pertencia àquela pessoa tivesse levado um choque e instantaneamente apreciasse uma inconsciência enquanto o corpo permanece de olhos abertos. Todo o resto entra em processo de luto.

Júlio, meu caro, você parece ter tocado as mais profundas proporções às quais o que vive dentro de mim é capaz de chegar. Feche seus olhos e permita que as minhas profundezas toquem as suas e sintam a coisa em que se tornou, se for uma coisa. Se não for, me mostre como é essa luz ou essa escuridão na qual você vagueia, a menos para que eu saiba que mesmo morto você ainda vive bem. Sei que não foi você quem lhe matou, mas Júlio, se passares por mim em algum momento nessas grotescas entradas do multiverso, por favor, me pare nem que seja para um cumprimento, nem que seja apenas para um "oi". E, quem sabe, nosso espíritos poderiam pela primeira vez tomar um drinque juntos!


[ Nota: Já pensei inúmeras vezes em me matar e conheço outras pessoas que idem. Dois anos atrás, especulava-se que a Amy (Winehouse), morta em julho, haveria se matado; no mesmo mês do mesmo ano, um garoto da minha escola também se matou. Recebi a notícia de ambos na mesma noite e foi um choque. Alguns dias depois escrevi esse texto. Espero que eles estejam bem e que nós sejamos humanos menos miseráveis, tornando o mundo um lugar melhor e dando motivos para que as pessoas queiram viver e não morrer. ]

17/07/2013

Despedidas Sinceras

Que sigamos em frente então, cada um com o seu caminho.
Poderíamos sonhar juntos, mas viver é algo bem independente quando se vive intensamente. Logo, que cada um viva o seu, para compartilhar o nosso, entre nós, com todos, que seja. Sejamos livres mas que saibamos a estrada de volta.

Vamos ver outros lugares, respirar novos ares, se banhar em outros mares. O mundo inteiro é o nosso limite! Ou não. A lua me parece um bom lugar para se conhecer... Mas cada experiencia tem que ser intensa, única, bonita e cheia de aprendizados. Essa é a minha condição.Que sejamos felizes, tristes. Que não queiramos voltar pra casa e tomara que a gente sinta saudades.

Sei que nossos destinos vão se cruzar nessa longa jornada. Espero que depois, cada um conte suas aventuras, dai a gente começa uma nova historia.

Viver de verdade é assim: com momentos incertos, com diferentes sabores.
Te peço que de vez em quando possamos nos encontrar, ficar deitados juntinhos. São esses momentos que eu afirmo para mim mesma que te amo. E amor é isso, é compreender que as pessoas são livres. É dar liberdade ao outro.


"Quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando. Mas quem apenas olhar uma flor num campo, permanecerá para sempre com ela. Você nunca será minha e por isso terei você para sempre."
11 minutos - Paulo Coelho


16/07/2013

Renovando



Só estou tentando registrar todos os gritos abafados do coração e da alma, porque são sinceros. E sentimentos sinceros são dignos de serem lembrados, mesmo que a camada de orgulho (ocasionalmente ferido) costume não deixa que as lembranças felizes fiquem. E então percebemos que é necessário esvaziar um lugar para preenchermos outro. Você pode sentir uma coceira de lágrima nos olhos quando perceber isso, mas lembre-se que é necessário quando acontece. E sincero.

Então não se assuste: esse é só o renovar da vida.

13/07/2013

Bêbedo de ilusões

Ainda ontem abracei a escuridão e vi uma dança de ilusões. Era tudo tão mísero e belo, no ritmo certo, que eu me envolvi. Tentei apenas contemplar mas ao final eu já era mais um dos dançarinos iludidos. Vivíamos tentando convencer aos outros da mentira que dizíamos que éramos e acreditávamos na mentira dos outros também. Fora daquele breu, ninguém brilhava realmente.

E talvez por isso eu preferisse viver nesse lugar escuro para que pudesse ver as coisas irradiando de vez em quando. Um show de falsas belezas todos os sábados, qual o problema disso? Talvez eu devesse adequar às minhas sextas também. E quintas. E à semana inteira. Eu deveria mesmo é viver bêbedo para jamais ver a infelicidade das tardes comuns. Ter meus olhos sempre vermelhos de alegria.

Eu seria definitivamente popular. Todos adoramos essa gente bêbeda de fantasias, vivendo milhares de histórias e inventando outras milhares. Algumas nem dá para saber a que hemisfério pertencem. Talvez assim todo mundo gostasse de mim, e se não gostasse, ao menos me conheceria. Eu já não seria qualquer um. Eu seria uma zonzeira perdida na noite, sempre visto abaixo das estrelas como que abençoado por elas. A noite seria meu chapéu e a festa minha vida.


11/07/2013

Sobre ser e estar


Together é junto
Junto é o que eu quero
E o que eu quero é together a você
E você together a mim
Pois juntos podemos be psychos
E be psychos é ser maluco
E ser maluco é bom together
Porque juntos podemos
E só podemos be psychos se for together.

Togethe-se a mim

#10on10 julho: Borboletas e música

Olá conspirandos do meu Brasil! O 10on10 desse mês saiu dia 11. Atrasado, para variar. O tema que escolhemos foi "Borboletas e música". Pode parecer que não tem muito a ver uma coisa com a outra (talvez nem tenha), mas são duas coisas que juntas ou não são a maior expressão de liberdade, fluidez, de beleza. Vocês concordam?

Bom, quero deixar claro que me diverti à beça fotografando isso, e que foi extremamente nostálgico. Tomara que gostem.


Esse é o CD Dez de Dezembro, da Cássia. Eu acho essa foto do encarte maravilhosa. Pra quem não sabe, esse bebê é o seu filho, Chicão. A música é "No Recreio", uma das muitas do Nando que são as minhas preferidas, e que ela interpretou. Quer mais amor que isso? Vale a pena ouvir.

Quem me presenteou com esse CD foi a Luisa, uma amiga de anos, no meu aniversário de 16. 


Falando em tempo, comprei esse brinco quando eu tinha 14 anos, aqui em Sete Lagoas. Exatamente nesse dia aqui. Sim, eu escrevi um post sobre esse dia em 2009, e morri de saudade. Séculos que eu nem mexia com ele.


O Teatro Mágico é amor pra mil vidas inteiras! Esse é o trecho da música "Pena", perfeita pra dar aquele up    naquele seu dia borocoxô. 


Mais uma do encarte do CD da Cássia.


A saudade foi tanta, mas tanta, que eu acabei colocando o bendito na orelha... E não é que eu gostei?


Apresento-lhes José Carlos, ou Zequinha, se preferir. O presente mais lindo que meu avô me deu, porque eu fui a unica neta que também pegou o violão para tocar. Aliás, aceito doação de um acordoamento novo. E aulas para afinação também. 


"All Star" é a música da minha vida, sempre será. Foi a primeira que eu aprendi no violão, e eu nunca mais esqueci. Tenho um vídeo tocando ela no facebook, já ouviu? Mas é como eu já disse, preciso aprender a afinar o violão. Tá valendo, não é?


E eu sofri


- Eu vim correndo, porque precisava te ver.

Chovia muito. Eu estava com o vestido, os cabelos e o sapatos encharcados. Você abriu o portão, e me olhou estarrecido.

- Meu Deus, entra.
- Não.
- O que está acontecendo?
- Eu te amo.
- O que?

Eu abraçava meu próprio corpo, sentindo a água escorrer pelo rosto, me impedindo até de abrir o olhos e falar com clareza. A única luz que havia ali era a do poste. Amarela, fraca. Piscava. Por ter subido a sua rua correndo, além do coração que saltava e a sensação forte na boca do estômago, eu mal respirava. Fiquei os olhos fechados por uns segundos, para ver se a aflição passava.

Te olhei e você estava boquiaberto, com as mãos apoiadas no marco do portão, as sobrancelhas arqueadas, os olhos em mim. Comecei a sentir uma certa vergonha por ter feito aquilo. Queria que algo me tirasse dali, e que eu simplesmente estivesse em casa. Mas não é do meu feitio deixar as coisas pela metade, então...

- Você entendeu. - eu disse, com certa veemência.

Nos olhamos por algum tempo. Você titubeou, parecendo que não sabia o que fazer com aquele 1, 59 de pura loucura. Mas veio na minha direção, desceu o meio fio e me abraçou por cima dos meus braços. Senti o quanto estava quente, e me lembrei de como gosto do seu cheiro. Depois, nós dois estávamos frios, molhados. Passei meus braços em sua volta. Encostei minhas têmporas no seu peito, mas não ouvia nada ali. Era só meu coração que sambava, duro, dolorido dentro do meu peito. O seu, era silêncio. Estremeci.

Usando as duas mãos, você levantou o meu rosto e me olhou dentro dos olhos. Mas esse olhar foi facada, não consegui retribuir. Eu não via o que queria nos seus olhos. Tentei te fitar, mas desviei. Senti você me beijar a testa, e me abraçar de novo. Depois senti a barra do meu vestido levantar. A chuva havia parado, e ventava frio.

Você me libertou do cárcere do seu abraço, e eu sofri. 

- Vem cá, deixa eu te levar pra casa. Tá tarde.
- Tudo bem.

Seu braço veio por cima do meu ombro da sua casa até a minha. Vim arrastando os pés, e senti que havia deixado um rastro de sangue por onde passamos. Quando fomos nos despedir, ainda via aquela pontada de misericórdia nos seus olhos, e desviei outra vez.

- Se cuida, fica bem.

Esbocei um sorriso, e entrei sem dizer mais nada. Nada mais que eu quisesse.

10/07/2013

Recompensa

Estava minimamente refletindo sobre a atual conjuntura da minha vida e consegui enxergar apenas uma coisa na frente do meu nariz: você. Isso me preocupa profundamente, porque me avassala como qualquer outro vício vil. Tanto que eu poderia dizer que estou - finalmente - apaixonada e que de novo estou vivendo essa coisa toda sozinha.

Tudo bem que dizem por aí que quando uma garota (ou mulher, se achar que sou uma) leva uma rasteira de um primeiro amor, ela absorve, toma como aprendizado e nas próximas vezes é tranquilo... Mas no mínimo, quem disse isso é alguém que está numa órbita qualquer, porque todo mundo sabe que as coisas não funcionam assim. Sinceramente, essa coisa de ser "tranquilo" demora pra acontecer.

Venhamos e convenhamos, é tudo uma merda. Tudo dolorido. Mas né... estamos por aí para isso mesmo. Para que as borboletas no estômago, as vezes que os olhares se cruzam, todos os textos de amor, todos (dos poucos) beijos, pra tudo valer a pena. E todo resto vale. De verdade.

Por que do que adiantaria a vida se não há pelo o que sofrer? Ela mesma faz questão de nos recompensar pelo esforço, é papel nosso querer enxergar isso. Você sabe do esforço que falo... lutar contra o orgulho de não querer tomar a iniciativa, o velório do amor próprio quando procuramos a outra pessoa, o egoísmo de querer "só pra mim, como as ondas são do mar." É assim mesmo.

Só tenho a certeza de que, se esse amor é certo, um dia irá vingar. Se esse amor é certo, simplesmente não haverá outro depois. 

E a vida nos recompensa assim: nos deixando vivos para viver. Para ver o que vai acontecer.

imagem: Pinterest

08/07/2013

... todo você.


Se me perguntarem como chegamos ali, eu simplesmente não conseguiria responder.

As luzes eram amarelas e médias, havia uma almofada branca enorme meticulosamente colocada no centro do recinto. Olhei todas aquelas paredes de tecido, os galhos do lado de fora... estávamos no alto. Numa casa na árvore. Você foi fechando todas as janelas e a espécie de porta que havia ali. Eu me sentei por cima das pernas, e fiquei te observando. Eram duas janelas, e quando você fechou a primeira e ia para a segunda,  virou-se para mim apenas para que eu pudesse ver seu sorriso, sua boca e quisesse te beijar ainda mais. Morder seus lábios, seu queixo...

Consegui parar de pensar quando você, fechando a segunda janela, veio na minha direção. Nós nos olhávamos demasiado, passeando o olhar por todo o corpo um do outro. Você sorria com malícia, enquanto tirava a camisa. Eu caí de lado na almofada, rindo daquele jeito que eu já te expliquei que é por não conseguir exteriorizar o que eu sentia.

Você veio andando ajoelhado, me levantou com veemência e me beijou devagar e docemente. Coloquei os meus braços em volta do seu pescoço, te apertando a nuca. Você puxou a minha blusa devagar e a subiu, até que ela passasse por minhas mãos, acima das nossas cabeças.

Fui sentindo seu abraço mais e mais forte, e a muito tempo não me sentia tão bem com tão pouca roupa. Nos deitamos naquele mar branco (mar sim, porque não conseguia ver mais nada além de você), eu te senti e você me sentiu em cada milímetro de nossos corpos. Às vezes eu sentia seu pés, sempre sentia seus braços, seu peito, sua boca... Ficava com a mão direita na sua nuca, passando no seu cabelo, e arrepiava inteira quando você passava seu queixo pela minha clavícula para me beijar o pescoço.

Senti você me apertando por cima da minha escápula, e me segurei em você com os braços e as pernas. Nos viramos, e agora eu podia te ver inteiro. Todas as suas marcas, pintas... todo você. Estava sentada no seu quadril, e me curvei para poder te beijar de novo, mais uma vez, e mais algumas. 

Você veio passando os seus dedos indicadores, médios, anelares e mindinhos por minhas costas, e os polegares pela minha barriga, desenhando a minha cintura. Nos olhávamos como os mais apaixonados dos cúmplices, enternurados. Me deitei em você, pra te sentir inteiro de novo. 

Abri os olhos e olhei para fora. O sol das oito da manhã entrava meu quarto afora. Eu estava envolta do meu cobertor xadrez. Suspirei. 

Me levantei para escrever sobre o meu sonho, porque aí o eternizarei.

05/07/2013

Tudo (a Fantasia)

Todas as rosas que não tive a oportunidade de lhe dar, todas as garrafas de vinho que tomamos antes de nos entregarmos aos lençóis. Todas aquelas noites em que paramos e ficamos olhando pro céu enquanto você dizia que a lua estava nos sorrindo como o gato de Chesire. Todas as canções que não tive tempo de lhe dizer que eram nossas. Tudo isso nos pertencia e nós nos embriagamos com apenas uma fração desse amor, desperdiçando todo o resto como se fôssemos ricos em sentimentos. Agora, de ressaca, vejo que somos apenas miseráveis. Mas um dia nós tivemos tudo.

Juntos, éramos poderosos e mais que tudo fantásticos. Poderíamos ter tido tudo o que quiséssemos contanto que permanecêssemos unidos. Eu conheceria milhares de cidades com você para vivermos as mais loucas aventuras, para estarmos em todos os lugares, para preencher cada pedaço do mundo com o nosso amor. Eu mostraria a todos nós dois e as nuvens seriam nosso altar. Enlouquecido pela ingenuidade, eu não pude ver que a fantasia é algo além das coisas belas -- e quando uma antiga sina saiu de dentro de você brigando no vazio contra algo dentro de mim, minha alma esteve em prantos por uma eternidade.

Agora estou sozinho, caminhando por todos os lugares que eu pretendia dividir com você. Ganhei o meu território e você o seu e mesmo assim tudo me pertence. O gato de Chesire ainda sorri para mim, as rosas ainda florescem nos jardins e o mundo não parou de acontecer só por causa do nosso amor falecido. Séculos se passaram enquanto eu sofria o luto da sua morte, embora eu tenha morrido também. Nós tínhamos tudo, mas não éramos tudo. O tudo continua, sempre em frente, por si, e agora eu luto para agarrá-lo e prendê-lo a mim. Quero o tudo como um troféu. O glamour, a beleza, os sonhos, as nuvens, as noites, os dias, as lutas, as alegrias, os sofrimentos, qualquer coisa que beire o fantástico agora me pertence. Nosso amor talvez tenha sido uma ilusão, mas não foi a única do mundo... e agora as ilusões são os lábios que perseguirei como eu sempre deveria ter feito. Todas as fantasias agora me pertencem -- e eu as abençoarei em cada passo que eu der.




04/07/2013

Vem!



Vem me buscar.
Fazer-me sorrir com os olhos,
calar-me com seus lábios,
desaparecer com meu corpo nos seus braços,
me deixar escorrer com teu suor.

Vem, e me perdoa.
Eu fui boba,
deixei minhas roupas...

no meu corpo.

Já disse, você me atordoa.
Me tira o ar.

Mas vem.
Só vem.

A direção é pro meu lado.
O caminho é meu.
A rua é minha.
E eu a ladrilhei só para você passar.


Assinado Eu by Tiê on Grooveshark


02/07/2013

Domingo


Era domingo.
Umas duas horas.
Quando eu cheguei só tinha a mesma sensação de quando saí de casa: algo vai acontecer.
Mas sabe quando a gente nega isso?
Você foi a primeira pessoa que eu vi, e também neguei a sensação de que você faria a diferença pra mim um dia.
Só intuição, só intuição!
Fiquei naquela coisa de me manter no seu campo de visão, me exibindo feito pavão.
E quando assustei, você também se mostrava para mim.
Foi ai que aquela sensação subiu do estômago.
Vomitei sorrisos correspondendo os seus, e te olhei nos olhos quando tirou o óculos de sol.
Meu Deus, pensei. Quero esse cara para mim.
A sensação percorreu todos os músculos do meu rosto, e depois desceu corpo afora.
É... ele fará a diferença.
Mexemos os pauzinhos e providenciamos um beijo.
Sentei do seu lado e cruzei as pernas, que você fitou demasiado. E eu adorei. Sua visão era calorenta.
Você era calorento.
Reparei seu nariz, sua boca... e você também reparava em mim.
Sorríamos. Até eu, com meus dentes tortos.
Nós não nos desgrudamos mais, e eu nunca quis perder essa sensação de te ter comigo.
E ela era enorme. Virou tudo, todo mundo, eu...
Que bagunça você fez!
Cheguei ao patamar de te olhar e querer um filho seu.
Tivemos um, acredita?
Nos casamos depois.
Fomos felizes.


Era domingo, afinal.
Umas duas e meia, três horas.
Eu sabia que tinha algo pra acontecer, e fiquei louca querendo saber o que era.
Te vi, te quis.
Te quis.
Te quis.
Meu Deus, como eu te quis!
Não neguei a sensação.
- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você.
- Também!
Continuei não negando.
E você não ligando.
Talvez assim seja mais seguro, pensei.
E foi.


Só sei que o resto da semana vi suas fotos e meu coração deu um triplo mortal twist carpado para trás.
Aconteceu com tanta frequência que já me acostumei.


Era domingo, de novo.
Eu estava sem relógio.
Dormi.
Quando vi, era segunda.

01/07/2013

Pop

Acho que isso me inspira um sentimento, essa situação estranha à qual nos submetemos hoje. Não sei dizer o que mudou, mas há um quê de diferente em todo esse clima. Estamos mais atraentes, nossos corpos e linguajares suburbanos foram modificados e o que antes era nosso pequeno grupo aumentou. Quanta gente ao nosso redor, quantos amigos e conhecidos, rostos beijando nossas faces e abraços nossas costas. Somos os populares que antes queríamos ser, somos os melhores amigos de todos aqueles que por alguma razão admirávamos tempos atrás. Nossos pequenos ídolos encarneceram-se e de tão reais já não mais brilham como antes.
            
Brilhamos tanto quanto nossos antigos ídolos, ou até mais. Se eles passaram por todo um processo de decadência ou nós pelo de ascensão já não mais interessa. Refletimos se os olhos atentos lá fora nos acompanham com o mesmo fervor com o qual acompanhávamos nossos antecessores e aderimos às imposições sociais de beleza e socialização. Criamos uma imagem em cima do que somos para enfim sermos vendidos como meras ideias. Sofremos a escravidão da vaidade revolucionária e divina. Tornamo-nos ícones dentro de um contexto na simplória esperança de sermos admirados.
            
Tudo é uma questão de inspiração: ver alguém e usar a mesma roupa com o cabelo de outra pessoa e um toque de algo que já temos, na esperança de alguém espelhar-se em nós e inspirar-se. Na esperança de que alguém deseje ser quem somos, deseje ter o que temos ou exclusivamente ter-nos por completo. Inspirar é ser desejado, é uma deprimente carência que de tão grande não cabe no nosso próprio cotidiano: é preciso estarmos dentro até mesmo das pessoas desconhecidas. A vaidade é o reflexo da solidão capitalista, e nós as armas de nossa própria solidão egocêntrica. Somos o cuspe desesperado do nosso profundo objeto de desejo, uma confusão luxuriante perdida entre restos e nichos procurando ser alguma coisa.
            
E tudo isso nos trouxe aqui, de volta ao ponto de encontros de outrora. As andanças de nossas almas desde a nossa separação se torna evidente em cada gesto nosso. Pessoas inimagináveis se uniram por motivos talvez mais profundos do que a minha compreensão. Laços relacionamentais foram modificados, alguns desfeitos e criaram-se novas alianças -- trocaram-se novas alianças. E afinal, no meio de tanta gente tentando ser uma imagem presente se transportando para todos os lados, de fora pude enxergar com maior clareza quais laços realmente contribuíram para o que eu sou hoje. Alguns laços se tornaram fortes o suficiente dentro de mim a ponto de cultivarem uma intimidade que mesmo após anos apodrecida, floresce novamente como se nunca tivesse deixado de existir num simples reencontrar com velhos amigos.


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