26/10/2014

O último

- Vem almoçar comigo?
- Não vai dar.
- Tudo bem.

(...)

- Aqui, eu vou sim. Ainda posso?
- Claro, estou esperando você.

O vi entrando pelo portão pela milésima vez em nossas vidas. Um bilionésimo beijo no rosto por receio de não sei o quê e um  abraço apertado, na cintura, de um braço só. Fechou o portão atrás de si e me acompanhou pelo corredor.

Como se o tempo não passasse, ele ainda era meu par. Sentei-me perto enquanto ele comia. Levantamos e enquanto eu escovava os dentes ele ficou na porta do banheiro, mexendo no meu cabelo. Era um ritual. Me sentia confortável.

Eu não bebia, mas abrimos uma cerveja juntos, na minha casa, pela primeira vez.

- Ceres! É você? Meu Deus! Foram quantos anos?
- Sim tio, sou eu. Foram 14 anos! Passou rápido, né?
- Sim... nossa! Me conta, quem é aquele?
- É o namorado dela. - interviu meu pai.
- Cuida dela, rapaz! - disse meu tio, batendo no seu ombro.

Olhei para o chão.

Na sala, me acolhi no seu braço estendido e coloquei os pés em cima do sofá. Ás vezes ele me abraçava, e me beijava as têmporas. Adormeci feito criança. Acordava e olhava.  Adormecia para sonhar com ele. Suas mãos estavam no meu ombro, sua cabeça apoiada na minha. Desejava que ele ouvisse com o coração tudo o que o meu dizia. Ele gritava, vibrava. A sua presença me feilicitava!

Nos sentamos perto um do outro e agora eu só queria enxergá-lo. Olhei o contorno do seu rosto e não me contive em passar a ponta dos dedos perto da sua orelha, passando pelos seus lábios, seu queixo, sua barba. Ele foi fechando os seus olhos grandes e abrindo o sorriso. Sorri de volta. Suspirei.

Seu sorriso se fechou tão perto do meu e eu já havia perdido as contas de quantas vezes já senti aquele frio na barriga. Seus lábios me davam uma sensação indubitavelmente maravilhosa a qual eu não consegui, nunca, me acostumar. Sentia o gosto da cerveja, o seu cheiro... me afastei.

- Nós podiamos voltar.
- Não, não podemos.

 Olhei-o dentro dos olhos. Ele me retibuiu de um jeito que me implorava silêncio, e mais carinho. Assim eu fiz. Me recostei na cama e fui escorregando. Deitei na sua barriga, e ele na minha. Continuei com a mão no seu rosto, e comecei a sofrer a cada poro dele que meus dedos tocaram. Ele mantinha o semblante tranquilo, quase sorrindo. Parei com as mãos na sua barba. Olhava, dessa vez estarrecida. Não compreendi o por quê de tanta incoerência.

- Mas por quê?
- Não estou pronto.
- Pronto para quê?
- Para isso.
- Isso o quê? Você me disse ontem que tem medo de fazer errado e olha, esse medo é todo seu. Eu quero arriscar. Eu quero tentar de novo. Você está me ouvindo?
- Estou, mas não podemos.
- Você está sendo egoísta!
- Eu sei!
- Então para com isso!
- Não posso.
- Tem outra pessoa?
- Não, não tem.
- Você parou para pensar no caso de eu desistir? De seguir a minha vida?
- Sim.
- E não liga? Fácil assim?
- Eu ligo, e não vai ser fácil.
- Meu Deus! O que você está pensando?

Ele fechou os olhos, procurando ar. Me levantei, e me fechei no banheiro. Eu já chorava o suficiente para precisar lavar o rosto e querer me afogar na pia. "Meu Deus! Meu Deus!" Também busquei o ar e voltei. Ele estava sentado na beirada da cama, de cabeça baixa.

- Você tem certeza disso? - perguntei, firmemente.
- Sim, e você aceite se quiser. - sendo mais firme que eu.

Estremeci.

- Eu não aceito.
- Você tem certeza disso?

Não consegui olhá-lo.

- Tenho.
- Quer que eu vá embora?
- Te levo no portão.

Nos levantamos. Meus parentes ainda se distraíram com ele e com o seu cabelo novo. Acompanhei-o até o ponto de ônibus, sem pronunciar uma palavra se quer. E sem ouvir alguma. Até que fosse embora, o silêncio imperou.

Um último beijo, na testa, antes de entrar no ônibus. Um último adeus, pela janela.

Mal esperei que virasse a esquina para virar as costas. A sensação que tive foi de um abismo sem fim e a que tenho, é que o tempo não passou. Desde então, só sinto dor.



3 comentários:

  1. Você é demais, Ceres! Realmente queria que o mundo todo conhecesse o Conspiração Vital, mesmo com você dilacerando meu coração com textos como esse. ♥

    Centelhas de Amor

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    1. Nathalia, querida, muito obrigada pelo carinho! Fico feliz que você goste do que eu escrevo.
      Mil beijos.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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